Jeff Franco e Marli Cristina Scomazzon

“Esta pequena ilha tem muitas atrações: suas frutas não têm rivais; sua paisagem é selvagem e pitoresca; seus habitantes são amáveis e calmos. O clima embora cálido é influenciado por uma brisa marinha que faz com que o calor nunca seja opressivo. Os pássaros desta ilha são fora do comum pela doçura e brilho de sua música. A fertilidade do solo é vista na rica vegetação que oscila numa massa verdejante sobre vales estreitos e escarpados. Parece que o Éden saiu do leste no formato de uma ilha”.

A encantadora descrição de Santa Catarina foi feita por um norte-americano no meio do século 19. Ele e outros milhares de conterrâneos passaram por aqui rumo a Califórnia onde iam a busca de ouro. E é esta a história que conta o livro “A Caminho do Ouro – norte-americanos em Santa Catarina” de Jeff Franco e Marli Cristina Scomazzon baseada em dezenas de manuscritos dos viajantes daquela época. Uma história ainda inédita na História de Santa Catarina.

Os viajantes sem exceção ficavam encantados com tudo: com a comida (sobretudo o café e frutas exóticas), com a beleza da paisagem, com a hospitalidade dos nativos e ouve até aqueles que apaixonados por alguma mocinha desistiram da busca ao ouro e ficaram por aqui definitivamente. O contato com os catarinenses foi idílico na maioria dos casos mas também aconteceram conflitos e até mortos e a polícia local teve muito trabalho inclusive para repatriar viajantes que desistiam da jornada. É que viajar em pequenos barcos, por tantos quilômetros não era fácil. As queixas dos navegantes eram muitas e a falta de costume com o mar um grande empecilho.

Todos estes norte-americanos viviam na costa leste dos Estados Unidos pais que recém anexara a Califórnia após uma breve guerra com o México. Logo após o fim da guerra foram descobertas enormes jazidas de ouro na terra recém conquistada. Mas, não haviam estradas que cruzassem o país e o caminho era difícil e perigoso por causa dos índios ferozes, das imensas montanhas e vales cortados por caudalosos rios. Não havia ainda o canal do Panamá e a rota que consistia em contornar a América do Sul era a mais conhecida por todos. Este caminho era usado há muito tempo pelos baleeiros e viajantes dos EUA e Europa que comerciavam com o oriente.

O livro também dedica um capítulo a contar como os catarinenses viveram estes anos de invasão norte-americana. Existiam aqueles que se esforçaram ao máximo em ser bons anfitriões, outros viram no episódio uma boa oportunidade de lucro e teve quem se exasperou com a avalanche de homens ruidosos e ávidos por aventuras. Contrabando incontrolável pelas autoridades, caça a desertores e alforria de escravos foram episódios corriqueiros daquela época.

A atuação do consulado norte-americano em Desterro encerra o livro. Foram mais de 50 anos de atividade, alguns muito agitados e outros mais calmos. Os cônsules durante a febre do ouro fizeram o possível para que a invasão fosse mais suave possível, mas nem sempre tiveram êxito. Na correspondência oficial que ficou até nossos dias é possível observar também a influência que alguns deles tiveram na comunidade.

Em resumo, “A Caminho do Ouro” resgata um período da história de Santa Catarina do qual não se tinha notícia e que foi esquecido pela memória popular.

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